Climatizar todos os dormitórios muda a conta de luz, mas muda ainda mais a instalação. Fiação dimensionada nos anos 2000 para chuveiro, geladeira e alguns eletrodutos de uso geral raramente comporta quatro compressores funcionando juntos numa noite de 36 °C.
O desfecho costuma ser previsível: disjuntor desarmando de madrugada, tomada derretida, cheiro de plástico quente vindo da parede. Resolver a infraestrutura antes de comprar os aparelhos custa bem menos do que consertar depois.
O texto a seguir reúne os cálculos, as bitolas e as proteções que sustentam esse planejamento, com valores de referência para residências em 220 V.
Muita gente soma a potência dos aparelhos como se eles trabalhassem em revezamento. Não trabalham. Em onda de calor, todos os compressores operam perto do limite ao mesmo tempo, e o quadro de distribuição precisa aguentar exatamente esse momento.
A corrente de cada circuito sai da fórmula I = P ÷ (V × Fp), em que P é a potência absorvida em watts, V é a tensão (220 V) e Fp é o fator de potência do compressor, que nos modelos Inverter costuma ficar entre 0,85 e 0,95. Parece detalhe de livro didático, mas é esse número que define cabo e disjuntor.
| Capacidade | Consumo aproximado | Corrente estimada | Disjuntor bipolar usual | Cabo de cobre |
|---|---|---|---|---|
| 9.000 BTU/h | 800 a 950 W | 4,0 a 4,5 A | 10 A | 2,5 mm² |
| 12.000 BTU/h | 1.100 a 1.300 W | 5,5 a 6,0 A | 10 A a 16 A | 2,5 mm² |
| 18.000 BTU/h | 1.600 a 1.850 W | 7,5 a 8,5 A | 16 A | 4,0 mm² (ou 2,5 mm² em trechos curtos) |
| 24.000 BTU/h | 2.200 a 2.500 W | 10,0 a 11,5 A | 16 A a 20 A | 4,0 mm² ou 6,0 mm² |
Os valores são médias de mercado. O manual do fabricante manda mais do que qualquer tabela, e o projeto deve conferir a corrente de partida e a recomendação de proteção de cada modelo antes de fechar o quadro.
Para enxergar o peso disso, vale um exemplo prático. Uma casa com três quartos de 12.000 BTU/h e uma suíte de 18.000 BTU/h soma 5.350 W só em climatização, o equivalente a cerca de 27 A em 220 V.
| Equipamento | Quantidade | Potência total |
|---|---|---|
| Ar-condicionado de 12.000 BTU/h | 3 | 3.600 W |
| Ar-condicionado de 18.000 BTU/h | 1 | 1.750 W |
| Chuveiro elétrico | 1 | 5.500 W |
| Total apenas nesses itens | 10.850 W (cerca de 50 A em 220 V) |
Nessa conta ainda não entraram forno elétrico, geladeira, iluminação e tomadas gerais. Um disjuntor geral de 40 A ou 50 A, comum em padrões de entrada mais antigos, fica no limite com folga zero. Estimativas associadas ao Procel indicam que o ar-condicionado responde por cerca de 20% do consumo nas residências que o utilizam, e a participação no pico de demanda tende a ser ainda maior.
O levantamento prévio é a etapa em que os orçamentos baratos mais falham. Sem medir a carga existente e inspecionar o quadro, quem instala o aparelho dimensiona no escuro e entrega um problema com garantia de seis meses.
Em Belo Horizonte e região, o portal de classificados – Eletricistabh24h lista prestadores que executam laudo de carga, dimensionamento e projeto elétrico, o que ajuda a separar quem calcula de quem apenas puxa fio. A escolha do profissional pesa mais do que a marca do disjuntor.

Na hora de contratar, o que realmente vale exigir é pouco, e cabe em três itens:
A ABNT NBR 5410, que rege as instalações de baixa tensão, pede circuito independente para equipamentos com corrente nominal acima de 10 A. Na prática, cada ar-condicionado recebe seu próprio condutor saindo do quadro, sem dividir eletroduto de força com iluminação nem tomada de uso geral.
Para aparelhos de até 12.000 BTU/h, a seção mínima usual é de 2,5 mm², em eletroduto com até três condutores carregados. Já nos de 18.000 e 24.000 BTU/h entram 4,0 mm² ou 6,0 mm², e a escolha depende do comprimento do trecho: a queda de tensão não deve passar de 4% a partir do quadro. Quarto distante do QDC pede cabo mais grosso, mesmo com o mesmo aparelho.
A verdade nua e crua é que o fio de 1,5 mm² ligado a uma tomada comum, ainda frequente em imóveis com mais de uma década, não serve para ar-condicionado. Nem de brincadeira.
O motivo é físico, não burocrático. O calor gerado no condutor cresce com o quadrado da corrente (efeito Joule), então dobrar a corrente significa multiplicar por quatro o aquecimento. Em fiação antiga, especialmente a de alumínio, isso se traduz em tomada plástica amolecida e emendas esquentando dentro da parede, onde ninguém vê.
O mesmo raciocínio explica a vantagem da tensão de 220 V. Para a mesma potência, a corrente é metade da observada em 127 V, e as perdas ao longo do eletroduto caem para cerca de um quarto. Por isso a maior parte dos modelos eficientes vendidos no Brasil é 220 V.
No quadro, cada aparelho precisa de disjuntor termomagnético bipolar exclusivo, de curva C. O dimensionamento considera a corrente nominal em regime contínuo e o pico de partida do compressor. Para um aparelho de 12.000 BTU/h, a faixa típica vai de 10 A a 16 A, sempre conferida com o manual.
O dispositivo diferencial residual (DR) merece atenção à parte. As condensadoras ficam expostas a chuva e umidade, e uma fuga de corrente ali pode virar choque. A proteção DR de alta sensibilidade (30 mA) é o padrão recomendado para esses circuitos.
Honestamente, um único DR para a casa inteira é a pior economia possível: qualquer fuga num quarto derruba a energia de todos os outros. Dividir a proteção por grupos de circuitos, ou por aparelho, evita desarmes em cascata e facilita descobrir onde está o defeito.
Quebrar alvenaria duas vezes é o desperdício mais caro desse tipo de obra. A ordem abaixo reduz o risco de abrir o mesmo rasgo mais de uma vez:
Quem projeta tudo isso antes da compra dos equipamentos ainda ganha uma vantagem discreta: sabe de antemão a localização exata de cada condensadora e pode escolher a posição do ponto elétrico sem improviso.
Não é o recomendado, e acima de 10 A a NBR 5410 pede circuito independente. Compartilhar o disjuntor faz uma falha de isolamento ou um pico de partida num quarto desligar o outro. Quadro apertado se resolve com quadro maior, não com atalho.
220 V, na grande maioria dos casos. A corrente cai pela metade em relação a 127 V, permite cabos mais econômicos e reduz as perdas por efeito Joule nos eletrodutos embutidos.
Somando a potência de tudo que pode funcionar ao mesmo tempo, incluindo os novos aparelhos, e pedindo a um profissional habilitado um laudo de demanda. Se o total superar a capacidade do disjuntor do medidor, o passo seguinte é solicitar à concessionária o aumento de carga.
Nem sempre. O embutido em rasgo de alvenaria é o mais discreto, mas canaletas aparentes de alta resistência, passagem por forro de gesso ou aproveitamento de dutos existentes também funcionam, desde que se mantenham as condições de isolamento e ventilação dos condutores.
Ar-condicionado em todos os quartos é conforto garantido quando a instalação foi calculada para ele, e fonte constante de dor de cabeça quando foi apenas adaptada. A diferença aparece no primeiro dia de calor forte.
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Técnico em Eletrotécnica registrado no
CRT-MG sob nº
13601234567
, com 15 anos de atuação em Belo Horizonte.”